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Como foi escalar minha primeira Alta Montanha com uma Cholita Escaladora

Como foi escalar minha primeira Alta Montanha com uma Cholita Escaladora

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Acho que a maioria dos montanhistas conhecem ou ouviram falar das Cholitas Escaladoras, mas o que muitas pessoas não sabem é que além de romperem paradigmas de suas culturas, elas são guias de Alta Montanha na Bolívia, e eu tive a sorte de conquistar meu primeiro 6 mil metros com Cecília, e sim, parecia que eu estava vivendo um filme de aventura.

Agora senta que lá vem textão…

Eu como uma boa montanhista e Guia de Trekking, tinha o objetivo de conquistar minha primeira Alta Montanha durante o mochilão de 5 meses que fiz pela América do Sul em segurança, por isso levei a SPOT junto comigo nessa viagem.

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Logo que cheguei ao Norte da Argentina, me encontrei com minha amiga montanhista Julieta e comecei a sonhar ainda mais alto. Juli ajudou na produção do filme Cholitas Escaladoras no Aconcágua, foi staff das Cholitas e até se caracterizou com as vestimentas tradicionais, sendo confundida e confundindo a produção durante a gravação. Comemorou junto com elas o êxito da conquista da maior montanha das Américas.

Durante nossa visita em Salta, foi Juli que me passou o contato de Cecília, uma cholita boliviana que tem o orgulho da sua tradição e preserva a cultura da sua ancestralidade Aymará.

E sim! Umas das experiências mais significativas para mim durante essa jornada, foi ter conquistado Huyana Potosí com Cecília. Uma mulher forte, corajosa, experiente, uma pessoa incrível, excelente profissional, e que hoje eu tenho a sorte de ser amiga. (¡Te extraño Cecí!)

No primeiro dia em La Paz, eu “mirava” o nevado Illimani no horizonte, e meu coração já palpitava. Mandei mensagem pra Ceci, marcamos nosso primeiro encontro, e o coração agora pulava pela boca. Passava pela minha cabecinha:

- Vou realizar um sonho, maior que o sonho.
- Conquistar minha primeira Alta Montanha, e com Cecília, uma Guia Mulher.
- Aih Ceci, sou muito sua fã!Blog Post Image 2

Eu acredito em destino, e não é só mera coincidência. Era pra ser e acontecer. Nosso primeiro contato foi só sorrisos e alegrias, ela feliz por eu a ter escolhido como minha guia, e eu mais feliz ainda por estar compartilhando meu sonho com ela. Pronto, agora eu quero poder ajudá-la e levar sua história pro Brasil e pro mundo (obrigada SPOT por permitir contar essa história)!

Marcamos uma trilha para aclimatação, o Pico Áustria, com mais de 5 mil metros de altitude  no Parque Nacional do Condoriri, na Cordilheira Real, o mesmo maciço do Huyana Potosí. O caminho é cercado por famosas montanhas nevadas, lagos de degelo, Lhamas, Condores e Alpacas, nesse visual caminhamos por alguns quilômetros, Nat mascando folha de Coca com dificuldade na respiração, e eu super empolgada filmando tudo que eu via na minha direção.

Nosso grupo era formado por 4 mulheres, e neste grandioso dia, conquistamos nosso primeiro 5.000 m. Fomos recebidas por uma chuva de neve, ou chuva de benção, como queiram interpretar. Mas foi uma caminhada muito difícil pra Nat, e no final, eu já sabia que uma próxima alta montanha, não seria possível pra ela, não dessa vez! Cada corpo tem um limite, e é muito necessário respeitar.

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Estamos falando de altitude, existem muitos riscos pela falta de ar, é fundamental nos preservar e priorizar nossa saúde. O sonho dos 6 mil seria só meu agora, mas a Nat, mais do que ninguém, me incentivou e apoiou muito a realizar, me acompanhando ao vivo pelo localizador da SPOT (foi muito emocionante também)!

Escolhi Huyana Potosí, pela proximidade e facilidade na logística, afinal estávamos fazendo voluntariado no Hostel, e trabalhei 2 turnos para conseguir 2 dias de folga.

Entrei numa Van com vários gringos (a maioria jovens franceses), e durante o trajeto, íamos nos aproximando da imponente montanha. Era tão alta, que às vezes ficava sem ar só de olhar. Mas estava certa que era muito mais pela emoção de estar vivendo tudo aquilo, do que pelos efeitos da altitude.

Chegamos no acampamento base (4.800 m), com tempo suficiente para almoçar e finalizar os últimos ajustes dos equipamentos na mochila. Ceci me entregou os crampons e o piolet, o restante dos equipamentos eu já tinha comprado por uma pechincha na Feira do Alto (a maior feira ao livre que eu já vi na minha vida).

Finalizando minha mochila, liguei o SPOT X e seguimos a trilha para o acampamento alto (5.200 m), durante o caminho, o visual para lagunas, montanhas e glaciares, e lá fui eu, caminhando em passos lentos na altitude, com mochila pesada, vislumbrando um pouco do que iríamos enfrentar para conquistar nosso objetivo.

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Ceci guiando é a protagonista da sua própria “película” como diriam os latinos. Sua pollera colorida voava com o vento forte, usava o aguayo (pedaço de pano estampado) como mochila, as cores de sua vestimenta se destacavam e coloriam as montanhas nevadas.

Eu já estava emocionada demais, antes mesmo de conquistar meu objetivo, era muita felicidade estar vivendo esse momento com ela.

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Ser mulher e Guia de Turismo de Aventura no Brasil já não é um trabalho fácil, é uma jornada intensa de lutar contra preconceitos diários. Eu ainda tenho o privilégio de ser criada, educada e incentivada pela minha família para ter liberdade nas minhas escolhas, num país onde claramente as pessoas são mais “livres”. Agora imaginem o que Cecília vive, ela escolheu quebrar os paradigmas da sociedade em que está inserida, ser Guia de Alta Montanha, e mesmo sofrendo preconceitos diariamente, tem o orgulho de manter suas tradições Aymarás, usando trajes típicos, se comunicando com a equipe usando seu dialeto. Incrível demais a força e a coragem dessa mulher, muita inspiração. E que sorte a minha poder compartilhar a caminhada e o sonho com ela, minha grande admiração!
Que encontro Senhoras e Senhores!  Presente da Montanha, amiga pra VIDA!

Caminhamos muito bem, e em 1:30h percorremos os 4,5 km até o acampamento alto, onde dormiríamos por algumas horas (poucas) antes do ataque ao cume. Ali conheci o restante do grupo, que era também composto por muitas mulheres de diferentes nacionalidades.

Quero destacar a importância da presença feminina na montanha, isso nos inspira e fortalece demais, e por isso nosso projeto se chama Elas nas Montanhas, porque queremos incentivar vocês a chegarem ao topo, seja da montanha ou da vida pessoal, nosso objetivo é ver vocês conquistando seus sonhos, e isso pra gente é o topo, o ponto alto das nossas escolhas e objetivos. É emocionante o compartilhamento, a troca e a sororidade entre as mulheres.

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Jantamos cedo e os guias fizeram o briefing da jornada, com um jeito peculiar do inglês com sotaque Aymará. Os grupos foram separados, são 2 pessoas por guia, normalmente quando estão em casal/duplas, ou quando o ritmo de caminhada está alinhado. É essencial ter essa visão de equipe para ajustar as estratégias durante a atividade.
Hora de descansar, mas a adrenalina de estar vivendo aquele momento não deixava a cabeça acalmar.

Depois de um tempo, consegui entrar no modo “cochilo”, mas logo depois já era a hora de despertar. Levantamos meia noite, hora do “desayuno”, acordei com um pouquinho de dor de cabeça, no lado esquerdo, sentia uma fisgada no fundo dos meus olhos. Tomei um chá de folhas de coca, comi um pão, 10 minutos depois nada sentia, a não ser a vontade louca de começar a escalar.

Saímos 1h da manhã, e logo depois já chegamos no glaciar, hora de colocar os equipamentos técnicos. Crampones na Bota Dupla, Check nos equipos, Piolet na mão, hora de se jogar na missão.

Me “encordei” com a Ceci e seguimos firmes, pulando grietas, caminhando na neve, ouvindo o barulho do gelo estalar ao pisar. Uma onda de avalanche longe da gente, mas que dava pra escutar, usando as luzes das lanternas, mas sendo iluminadas pela lua quase cheia, fazíamos breves paradas para respirar, se hidratar e ganhar energia para continuar. Seguimos subindo e para completar, um trecho técnico para escalar.

Nos 5.800 m o Nascer do Sol veio para abençoar, até tive que parar, contemplar e rezar, é muita gratidão viver a energia dessa imensidão.

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A caminhada precisa ser devagar e constante, equilibrando a energia, sem estar ofegante. Respira e Anda;
Inspira e Caminha;
Respira e Pula;
Inspira e Escala.
Segue esse mantra!

Chegamos nos 6 mil metros, parecia que faltava pouco, a neve descongelava, e ainda teríamos alguns obstáculos para superar…
Tira os Crampons, para depois colocar;
Trecho íngreme para escalaminhar;
Toma cuidado para não escorregar;

Pedras soltas onde alguns dias atrás também era glaciar.

Corpos cansados e pernas bambas de tanto andar,
Mas o rarefeito já tava feito, e cheia de energia eu ainda tinha lá!
Bora pra cima!

Recoloca os crampones, é a pausa pra respirar, só mais 10 minutos e chegamos lá! É abismo pra todo lugar.

- Foco!
Ceci “hablava”…

E eu focada, estava no último trecho e num piscar, estávamos lá!

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Conquistamos Huyana Potosí, minha primeira Alta Montanha, chegamos aos 6.088 m de altitude de montanha nevada. Mais feliz do que chegar tão alto, foi estar ali compartilhando com a Ceci, valorizando e confiando no seu trabalho, e ela ter me entregado TUDO!

Essa conquista foi muito mais incrível, porque foi com ELA. Eu estava acompanhada de uma mulher inspiradora, conheci sua história de vida, aprendi muito sobre sua cultura e suas tradições, toda sua luta de vida. Foi um encontro de trocas e respeito mútuos.

E se eu puder dar uma dica: - Mulheres, valorizem outras mulheres, acreditem em nosso potencial, e apoie nosso trabalho. Vamos nos fortalecer!

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Não é nada fácil lidar com o preconceito, olhares desconfiados e palavras duvidosas sobre nossa capacidade. É o apoio e o incentivo de vocês que nos dá mais força de continuar no propósito que a gente acredita, e fazer o que amamos.

Senti toda a delícia e a dor de ser a louca que sou. E confesso que foi uma das loucuras mais insanas que eu tive a oportunidade de realizar durante o mochilão.
Anota aí! Porque agora a meta é encarar novos desafios malucos e insanos.

Brasil e Bolívia “CARAJO”, duas mulheres guias de montanha, juntas, se apoiando e motivando as realizações dos sonhos e desejos pessoais, é sucesso demais!

Levantamos a bandeira de Pachamama, a mãe natureza, representando o feminino no pódio, como um troféu. Ao mesmo tempo, a Nat estava no hostel, acompanhando nosso trajeto pelo SPOT X e comemorando nossa chegada.

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Mente leve, corpo cansado, emoções a flor da pele presa dentro do casaco de neve. Assim eu me sentia em 20 minutos no cume, antes da hora de retornar. Eu super emocionada com toda essa experiência, ainda precisava ter a energia para voltar, sem nem imaginar como seria todo caminho percorrido, que durante a subida eu não conseguia enxergar.

A vivência de ver os detalhes das geleiras, a profundidade das grietas, castelos de gelo construídos pela natureza, desbloquearam um novo medo. Caminhei, ginguei e flutuei. O rarefeito bateu, e não era falta de ar, eu estava chapada e alucinada de estar naquele lugar.

Ceci me presenteou com seu mundo, compartilhou comigo seu universo, me proporcionou segurança junto da SPOT na conquista das Altas Montanhas. Foi simplesmente melhor que nos meus sonhos, umas das experiências mais incríveis da minha vida. Momentos únicos, inesquecíveis, insubstituíveis, vivi tudo com muita intensidade. Assim como tudo na vida, me joguei de cabeça.

Ela foi inspiração para as mulheres do grupo. A Cris, uma jornalista chilena, compartilhou essa emoção com a gente, ela escreveu uma publicação para compartilhar essa experiência com o mundo. E agora é a minha vez de ajudar a divulgar o trabalho de Ceci e de todas as mulheres guias desse mundão.

Eu preciso agradecer esse encontro, e nem sei como! Espero um dia poder compartilhar um pouquinho das montanhas do Brasil com a Ceci. Já que na próxima temporada eu volto pra Bolívia para mais um desafio com ela.

E se vocês mulheres quiserem escalar e conquistar Alta Montanha na Bolívia, que seja com Cecília. Sua experiência será inesquecível e segura, além de fortalecer e apoiar o trabalho de outra mulher.

Obrigada SPOT por proporcionar nossa segurança e ajudar a compartilhar nossa história para o mundo. Em breve estaremos nas Altas Montanhas novamente, Eu @juh.santiago, @cecilia_cholita_escaladora e @brasilspot

Spoiler: Depois que as Cholitas Escaladoras conquistarem o Everest

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