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Exclusivo: Leia Um Capítulo de Mashallah - do Ártico à Ásia de bicicleta

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Capítulo 4

 

BIFURCAÇÃO CONTRAINTUITIVA

São Petersburgo, Rússia

59.93222, 30.34613

27 de outubro de 2018
 

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Os primeiros instantes no novo país, como sempre costuma acontecer, foram de alívio e apreensão. Por mais experiente que você seja, a travessia de fronteiras sempre representa um marco zero em que se reiniciam todos os parâmetros e quase tudo que aprendemos no território anterior não serve mais. A humildade é sempre o primeiro passo a se dar. Afinal, é como estarmos despidos, ignorantes diante de uma nova realidade, especialmente, quando atravessamos regiões tão bem demarcadas — como entre a União Europeia e a Rússia —, onde a linha imaginária que separa os países é quase visível.

As fronteiras são invenções humanas, mas não por isso deixam de ter um encanto particular. Muitas vezes, até o clima muda de um lado para o outro. E foi exatamente isso que aconteceu nesse caso, dando ainda mais simbolismo àquele novo mundo. A chuva cessou e o sol, por milagre, deu as caras por alguns minutos. Um largo acostamento me surpreendeu na estrada, mas a tranquilidade foi embora no instante em que vi os carros usando a área de descanso como faixa auxiliar para ultrapassar. Sim, pela direita! O vácuo e o deslocamento de ar provocados pela alta velocidade dos veículos desafiavam minha concentração e me desequilibravam. Meu coração saía pela boca. 

Enquanto os carros seguiam quase se acotovelando, a chuva voltou. Placas alertando para a presença de ursos com mensagens apenas em russo inibiam qualquer desejo de acampamento selvagem. Eu ainda precisava me abastecer e entender o câmbio, os preços, os horários, o que poderia ou não fazer por ali. Para evitar sustos e garantir que o primeiro dia terminasse bem, apelei para um posto de gasolina, fiel amigo do cicloviajante. É neles que, além de conveniência, ambiente climatizado, banheiro e internet, normalmente encontramos onde acampar para ter uma noite segura, apesar de barulhenta. Tentei um, dois, mas só consegui morada no terceiro.

Ainda sem saber se a água da torneira era potável e com preguiça de filtrá-la, comprei uma garrafa para cozinhar. Ao desrosquear a tampa, veio aquele som de escolha errada. Insisti no erro e fiz arroz usando água com gás mesmo. Claro que o resultado ficou péssimo. A lição foi: aprender nos próximos dias a ler e falar algumas palavras básicas em russo, além de nunca mais cozinhar com água gaseificada.

São Petersburgo estava a quase 200 quilômetros dali. Determinei que lá eu faria uma pausa para descansar, digerir a recente experiência na Escandinávia e estudar possibilidades de rota. Embora estivesse em um novo e enorme país, cheio de histórias e dono de uma cultura única, meu pensamento se concentrava em como sair de lá e dar sequência à viagem durante o inverno. Interrompê-la e pegar algum transporte para o sul eram opções que eu preferia não considerar. Apesar de estar com medo, era necessário assumir as consequências das escolhas que eu havia feito. Era algo pelo que eu precisava passar. Mas, por trás da minha suposta valentia, eu já não conseguia mais esconder a angústia de não saber o que fazer, nem para onde ir.

Ao mesmo tempo em que a Rússia entusiasmava, ela também assustava. Se, para mim, a sobrevivência e a segurança estavam em primeiro lugar, então o que eu fazia ali a poucas semanas do início do inverno? 

Uma coisa de cada vez. Viver em cima de uma bicicleta nos obriga a lidar com as angústias no ritmo dos pedais. Não há atalhos. Voltei os olhos para a estrada e deixei esses pensamentos — que, junto das dores de joelho, vinham me angustiando desde a Escandinávia — para mais tarde. 

A histórica Vyborg, onde fiz uma breve parada, estava no caminho de São Petersburgo. Um imponente castelo só não chamava mais atenção do que a frota de tanques e veículos de guerra estacionados em um quartel, visível já a partir da ponte que dá acesso à cidade. Mal acostumado com a pacata Escandinávia, precisei logo vestir a roupagem de quem cresceu em São Paulo e viveu no Rio de Janeiro para driblar golpistas de plantão, que na praça principal estudavam os passos de turistas descuidados. 

Enquanto eu buscava um mercadinho, um suposto casal se aproximou. Logo senti o cheiro de malandragem no ar. O rapaz, aparentando ter menos de 30 anos, falava muito bem inglês e me perguntou se eu precisava de ajuda. De forma despachada, agradeci, disse que queria apenas descansar um pouco e comer alguma coisa. A mulher insistiu, indicou um restaurante onde eu poderia ir e disse que eles ficariam de olho na minha bicicleta enquanto eu almoçasse. Não precisei de mais nada para entender a situação.

Obrigado. Tenho comida. Vou comer aqui na praça mesmo.

Eles perceberam que não conseguiriam nada de mim, mas, antes de irem embora, o rapaz acendeu um cigarro, me mostrou sua faca e disse que, assim como no Brasil, na Rússia eu deveria saber como me defender. 

Quando eles deram as costas, segui viagem. O corpo esquentou, o coração disparou. Apesar do desagradável e ameaçador encontro, tentei não me contaminar por aquelas primeiras impressões na Rússia. Apenas liguei o alerta e me concentrei em chegar logo a São Petersburgo. 

Apesar de ser um evento externo, o susto evidenciou a minha vulnerabilidade. A mente não estava forte, o corpo falhava. Era como se eu tivesse perdido o meu próprio sinal de GPS. Decidi deixar as estradas vicinais e pegar a A-181 (continuação da finlandesa E-18), highway que me levaria mais rápido a São Petersburgo. Essas autopistas costumam ser uma opção segura, pois têm asfalto melhor e acostamento mais espaçoso. A experiência, no entanto, acaba sendo menos agradável pela ausência de natureza, pelo barulho e pelo grande fluxo de carros. E, nesse caso, foi uma péssima escolha também por outro motivo.

Após ter pedalado cerca de 15 quilômetros, quase fui jogado para fora da estrada por um veículo com uma sirene estridente. O carro me ultrapassou e me bloqueou, como se eu fosse um foragido, mas eu já sabia do que se tratava. Era uma camionete da concessionária da rodovia e o homem, em russo, dizia que eu não poderia estar ali. Em inglês (mas poderia ter sido em português), eu dizia que não havia sinalização que proibisse bicicletas. Ele pediu meu passaporte, tirou uma foto com seu celular (outra coisa que odeio) e disse que eu deveria sair da estrada imediatamente. Apesar de ele não falar inglês e eu não entender nenhuma palavra em russo, a discussão fluía como se ambos falássemos a mesma língua. Assumi a derrota e disse que deixaria a highway na próxima saída. Com gestos, ele retrucou que eu deveria sair naquele instante.

Olhei ao redor e não vi como aquilo seria possível. Estávamos em um trecho elevado de um extenso viaduto. Então ele me indicou uma escadaria imensa que dava acesso a uma estrada secundária. Não pude esconder a ironia em meu sorriso e, atrevido, disse que não. Simulei erguer a bicicleta para explicar que ela era pesada demais para carregar naquela estreita escadaria de emergência. Mesmo com ajuda dele, seria impossível. Sugeri que me desse carona. Naquelas circunstâncias e com aquele frágil estado de espírito, seria um prêmio “roubar uns quilômetros” e chegar logo a São Petersburgo. Mas ele estava irredutível. Vencido, fui escoltado por cinco quilômetros até uma praça de pedágio. Lá, o russo me fez atravessar empurrando a bicicleta para o outro lado, para então voltar os 20 quilômetros — tudo que eu havia pedalado na autopista — e enfim deixar aquela estrada. Que tortura!

***

Dois dias depois, finalmente cheguei à segunda maior cidade do país. São Petersburgo, que já foi conhecida por Petrogrado e também Leningrado, voltou a ter seu nome original em 1991, com o fim da União Soviética. Hoje, Peter (como é carinhosamente chamada) é a cidade mais ocidental da Rússia, cheia de comodidades e distrações. 

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O hostel em que me hospedei, e que me proporcionou um ansiado reencontro com o chuveiro depois de sete dias sem tomar banho, tinha confortos  com os quais eu já tinha me desacostumado. Pela primeira vez em algum tempo, eu tinha uma cozinha equipada para preparar refeições mais elaboradas sem pressa ou frio, e não precisaria calçar botas nem me agasalhar para ir ao banheiro. Havia também máquina para lavar roupas, café expresso, calefação, internet rápida, cama confortável... Além disso, o lugar ficava na agitada rua Rubinshteyna, região nada apropriada para meditar sobre os fantasmas que vinham me perseguindo desde o fim da minha temporada de auroras boreais. Aquelas ruas tinham entretido de artistas a filósofos… O que não fariam, então, com um cansado viajante?

Conquistar novos hábitos, como os que eu adquiri no Polo Norte, leva tempo, mas eu parecia não me importar em perdê-los enquanto via a neve cair através da janela do bar e virava mais uma dose de vodka. Cansado da minha própria companhia, irritado com a ausência de um plano e com a memória das dores ainda no meu corpo, encontrei em São Petersburgo o cenário ideal para me corromper rapidamente com as distrações de uma interessante metrópole. Assentei, cozinhei, fiz turismo, bebi algumas vodkas e até vivi um romance. 

Só que naquele entroncamento em que dois modos de olhar para a vida colidiam, apenas um poderia sobreviver. Para seguir viagem, foi necessário me perder em meus velhos hábitos para me encontrar nos novos. Era menos sobre o que fazer e mais sobre as coisas que eu queria viver e buscar naquele momento: sedentarismo ou nomadismo? Reduzir a questão a esse dilema, contudo, também seria um erro. A verdade é que semanas antes, sob o céu esverdeado da Escandinávia, havia nascido um novo olhar sobre minhas próprias experiências. Curiosamente, só ali, em São Petersburgo, depois de conhecer a carinhosa Oksana, foi possível calibrá-lo.

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