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Os Altos e Baixos do K2 - A Montanha Mais Mortal do Mundo

Os Altos e Baixos do K2 - A Montanha Mais Mortal do Mundo

Aventura

Nós que gostamos de viajar, aprendemos na pandemia a ficar num lugar só. Para mim foi um pouco diferente no K2. Fiquei 50 (Cinquenta!) dias no K2. Minha barraca tinha 3 x 3 metros. A vida lá em cima tem seus altos e baixos.
 
E foi de altos e baixos que a minha expedição ao K2 foi marcada. Mal sabia eu, mas teria que escalar 2 vezes para atingir o seu cume. Se eu soubesse disso antes da expedição começar, não tenho certeza que iria enfrentar essa escalada tão bem.
 
Para subir uma "pirambeira" do tamanho do K2, é necessário escalar a montanha em etapas. Ele é tão, mas tão grande, que o corpo humano não consegue adaptar ao pouco oxigênio que tem lá em cima. Para isso precisamos passar por um longo e doloroso processo chamado de aclimatação. Medicamente falando, temos que esperar o corpo produzir células vermelhas (eritrócitos ou hemácias) para captar o pouco oxigênio que tem lá. Além disso temos que nos adaptar à outras variáveis, como por exemplo, o ar seco. Nessas montanhas a umidade pode chegar à apenas 6% (comparado com 80% no Brasil!). Além disso tem a pressão atmosférica baixa, tem o frio que pode chegar a -40ºC no dia de cume, tem também a radiação UV que é muito mais alta do que lugar mais quente no Brasil... No fim das contas não podemos esquecer que estamos há apenas 1,4 quilômetros dom fim da estratosfera!


Na prática esse processo de aclimatação vai bem devagar. Na medida do possível temos que subir para uma altitude superior e voltar dormir para uma altitude inferior. Chamamos cada subida dessas de "rotação". Eis motivo de tanta "enrolação" que os montanhistas de altitude fazem antes de subir para o cume de uma montanha. Na nossa expedição fizemos apenas 2 dessas rotações antes de tentar o cume pela primeira vez.
 
A barraca do Maximo Kausch ficava perto da minha na base do K2 e nós dois começamos a reparar o quanto o glaciar que estávamos derretia à medida que passavam os dias.
Esse derretimento de geleiras é um processo natural que rola todos os anos, depois no inverno elas congelam de novo. Mas confesso que quando você está lá escutando cada bloco rachar e cada pedra rolar, é bem assustador.
Lá pela terceira semana no K2, o gelo ao redor da barraca derreteu tanto, que a barraca ficou no topo de uma espécie de torre de gelo. O fato da barraca fazer sombra no gelo, o sol intenso fazia com que tudo ao redor derretesse. De vez em quando tínhamos que tirar a barraca do lugar, nivelar outra plataforma, e mudar a barraca de lugar. Muitas vezes apareciam fendas embaixo da barraca, tudo isso causado pelo calor. Como eu disse, assustador!


Aliás um dos principais desafios que enfrentamos subindo essas grandes montanhas, não é o frio, mas sim a variação de temperatura! Pouca gente sabe, mas a variação de temperatura nessas montanhas é enorme. Imagine que durante o dia, na nossa base a 5.000 metros de altitude, podemos ter 40 graus celsius positivos! E à noite, na mesma base, podemos estar à 30 graus negativos! São 70 graus de variação, não há equipamento que aguente!
 
Imagine você sair da barraca de manhãzinha, naquela friaca de -30ºC, andar por 2 horas, e pegar 40ºC positivos! Nós só levamos um par de botas triplas, que pesam quase 2 kg por pé. Foi muito difícil pegar um calor de 40 graus com botas triplas! Nessas variações de calor, temos que ficar tirando e pondo camadas de roupa. E essa é a rotina, todos os dias, durante 50 dias!
 
A temporada de 2019 não começou muito bem. Enquanto eu ainda estava fazendo a aproximação no mês de abril, tivemos uma grande tempestade que pegou a Caxemira e Karakoram inteiro! Conheci a tempestade do lado da Índia enquanto eu estava levamos um grupo de brasileiros na Caxeimira indiana. Pegamos essa tempestade em cheio, e quase congelamos num rio! Enquanto isso o Max estava com os clientes dele do lado pakistanês indo para a base do K2. As poucas notícias que conseguimos mandar um ao outro, foram sobre essa grande tempestade! Muitos paquistaneses que encontrei aproximando o K2 me falavam a mesma coisa: "Nossa, nunca vi uma tempestade dessas nos 30-40 anos que vivo aqui!".
 
Já enfrentei muitas tempestades em montanhas grandes na minha vida. Mas essa foi uma das que mais lembro, talvez por causa do monte de dúvidas que isso me trouxe enquanto eu ainda estava à caminho da montanha mais difícil da Terra!

Quando você escala algumas montanhas grandes e longas na sua vida, aprende que o melhor jeito de ter sucesso nelas é enfrentando com humor as mudanças que acontecem todos os dias. Juntos com o Max fomos lidando com as adversidades sempre sorrindo. Conversávamos e dávamos boas risadas em cada uma dessas longas rotações para os acampamentos de altitude do K2. Numa delas ficamos falando tanto e rindo tanto, que chegamos com dor abdominal (e com 3 horas de atraso) ao Acampamento 1 a 6100 metros de altitude.
 
Quem já foi para montanhas de altitude sabe muito bem que dores abdominais não vêm somente de dar risada. Se você está indo escalar uma montanha de altitude saiba que em pelo menos um momento da expedição, você terá diarréia! No K2, o problema é que os acampamentos são minúsculos, montados no topo de abismos. E quando um desses imprevistos acontecem, são sempre em locais inoportunos. O meu não foi diferente, e uma hora a emergência aconteceu dentro da barraca com o Max. Era ali mesmo! Tive que pedir para o Max tirar a cabeça para fora da barraca, fechar o zíper ao redor do pescoço do coitado e tive que fazer o que eu tive que fazer dentro da barraca, no abismo para o outro lado da barraca! Olha, se você quer conhecer alguém bem, ter diarréia com ele num abismo, é a melhor forma! O Max também teve seus momentos de diarréia no K2, a sorte dele é que foi na base. No trekking pro campo base chegamos a pensar que ele estava com apendicite e que a expedição pra ele acabaria em breve. Mas eram apenas gases. Graças a Deus!
 
Já estávamos em meados de junho quando atingimos o acampamento 3 a 7200 metros de altitude. Conseguimos dormir lá, hidratar bem e depositar a maior parte da nossa carga, cilindros de oxigênio, comida e gás para, numa próxima rotação, tentar o cume.
 
Foi no meio dessas tempestades, rotações e dores abdominais que sem perceber, tínhamos concluído o período de aclimatação e estávamos prontos para a última investida e tentar o cume. Tínhamos 4 acampamentos montados e estocados com tudo pronto.
 
Tudo tinha encaixado e a logística saiu razoavelmente bem. Mal podíamos acreditar, mas era 16 de junho e estávamos saindo para o Acampamento Base avançado (5300m) para subir e não descer, até que tivéssemos atingido o cume.
 
Tínhamos memorizado cada pedacinho da rota do K2. Tínhamos alguns trechos bem intensos até chegar ao acampamento 4, que seria nosso ponto de partida antes do cume. Durante a subida, paramos a 5500 metros de altitude para comer o nosso lanche de pão e ovo. Este local de descanso é um dos poucos na rota toda do K2 que você consegue ficar de pé, no resto vocês está escalando paredes verticais demais para conseguir andar ou ficar de pé. Parecíamos crianças que tinham acabado de ganhar um presente: um lugar plano de 4 metros!
 
Ficamos sentados, comendo nosso Bolovo e admirando todo o caminho que percorremos até ali: Dava para ver a imensa geleira do Baltoro, uma das maiores do mundo! Ela parecia uma grande estrada, com linhas pretas de sedimento no meio. Demoramos dias para cruzar cada uma daquelas linhas e dali de cima tudo parecia tão simples e sereno. Fez refletir muito sobre a vida e sobre como vemos os problemas de outra perspectiva.
 
Olhando ao sul dava para ver o Broad Peak, uma das maiores montanhas da Terra. O imenso Mashebrum - também chamado de K1 pois se acreditava que era a maior montanha da região - era apenas um ponto a mais na paisagem.
 
Prestando bastante atenção conseguíamos identificar uma manchinha amarelas que eram as barracas do acampamento base. Era incrível imaginar que toda nossa salvação e toda nossa confiança estava naquele pontinho amarelo que era a nossa "metrópole" local. Era absurdo lembrar que o acampamento base estava a 100 quilômetros do primeiro local que você consegue chegar com um veículo 4x4. Que por sua vez estava a 8 horas de péssimas estradas até a primeira cidade, chamada Skardu. De lá são 2 dias para Islamabad! Estávamos realmente longe! Que dó de quem tiver que resgatar a gente se eu apertasse o botão de SOS do meu SPOT!
 
Ficamos apenas 20 minutos curtindo a paisagem. Apelidamos aquele rochedo de "Pedra do Bolovo". Até a pedra do Bolovo a escalada era meio que "tranquila", é depois dali a coisa começava a ficar mais vertical. Tínhamos que passar uma série de torres rochosas e contornar elas até chegar ao acampamento 1. Ainda tinha 2 grandes desafios para chegar ao último acampamento. O mais técnico deles era uma parede rochosa com uma grande rachadura que cabe uma pessoa dentro, é chamada de House Chimney. Não tem outro jeito de escalar essa parte que entrando dentro da rachadura e se espremer contra as 2 paredes e ir ganhando altura aos poucos. Chamamos essa técnica de chaminé, que é o que o Papai Noel usa para escalar a chaminé de volta! Após a chaminé tínhamos um outro trecho difícil, chamado Pirâmide Negra. Este trecho é bem macabro, trata-se de uma sequência de 12 torres rochosas - cada uma do tamanho da torre Eiffel - que quando vistas de longe tem o formato de uma pirâmide negra. Escalando esta sequência, chega-se numa grande plataforma de gelo que leva ao acampamento 3.
 
Mas é ao chegar ao acampamento 3 que você percebe que nem a chaminé e nem a Pirâmide Negra são os maiores desafios do K2! De lá, você consegue avistar uma grande massa de gelo que faz um teto negativo. Esse trecho é o mais difícil do K2, e fica entre o Acampamento 4 e o cume. Mal sabíamos, mas iríamos ter que enfrentar toda essa escalada duas vezes pois a nossa tentativa ao cume do K2 deu completamente errado. Mas essa parte fica para a próxima! Até mais...