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Caminhos do Sul em Duas Rodas | Parte 1

Caminhos do Sul em Duas Rodas | Parte 1

Aventura

Os Caminhos do Sul te levarão através de estradas do famoso interior dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul em uma aventura incrível e inesquecível.

Passava um pouco das 13h20 do dia 19 de fevereiro de 2020. No mundo explodia a pior pandemia de toda a história. A Covid-19, causada pelo novo coronavírus, iniciava sua trajetória que tiraria milhares de vidas e arrastaria milhões para a fome e o medo. Mas sem saber nada sobre isso, eu chorava na margem do Rio Púlpito.


Era o nono dia sozinho na estrada e haveriam ainda mais onze deles. Mas a viagem começou muito antes. Em um dia qualquer do início de 2017 eu estava no céu, olhando para aquela margem, e eu não estava lá. As ferramentas de imagens de satélite me ajudavam a marcar os lugares em que eu queria estar.
O Rio Púlpito, o Passo do S, o Passo da Ilha, o Passo da Morte que depois passou a se chamar Passo da Santa Vitória. Os Lageados com os nomes da mãe e da filha. Os Campos de Cima da Serra, as florestas de Araucárias, as Cachoeiras com nomes de antigas famílias. E se haviam os passos dos rios, eu também queria os passos da Serra Geral, Corvo Branco, Rio do Rastro, Rocinha e Faxinal.


Uma viagem que nasceu de um sonho. Um sonho que foi interrompido por incertezas, retomado, alterado, expandido e por fim, realizado. Vamos conhecer os 4 principais passos da Serra Geral nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, de, bike, mountain bike, MTB, Gravel, Barra forte ou seja lá a bicicleta que você desejar ou tiver, mas vamos juntos rumo ao desconhecido.


Feita a lista de locais incríveis para conhecer, nasceu o desenho da rota, nasceu o Caminhos do Sul, que se rapidamente se tornou uma das rotas de ciclo aventura mais desejadas no Brasil. Em uma segunda-feira de clima cinza, com uma garoa fraca, eu e meu cavalinho carregado saímos para realizar nosso plano.
Podemos dividir essa viagem em 3 grandes etapas, sendo a primeira de Indaial até Urubici, a segunda, de Urubici (SC) até o Cânion Monte Negro e a terceira de lá até Gramado (RS).
A primeira etapa seria um deslocamento pelas estradas de terra entre pequenas cidades do estado, rumo a serra catarinense. Após 7 cidades em 4 dias eu cheguei em Urubici.
Urubici é a cidade do famoso Morro da Igreja, cujo ponto mais alto está em 1822m de altitude e de onde podemos avistar a Pedra Furada que está no município de Orleans.


Foi dia de realizar o sonho de fazer um trekking incrível para chegar nessa pedra. Guiados pelo pessoal da Serra Sul Turismo, que providenciou todas as autorizações necessárias para entrar no Parque Nacional e nas terras da Aeronáutica, por onde passa a trilha.
Uma incrível sensação de realização tomou conta de mim quando eu finalmente cheguei naquela Pedra Furada que tantas vezes admirei, de longe, imaginando como seria estar lá dentro. Eu estava lá.


Primeiro sonho realizado, partiu Serra do Corvo Branco. Eu iria descer a serra sentido Grão Pará, mas para fazer isso eu precisava subi-la do lado de Urubici. A Serra do Corvo Branco foi o meu primeiro passo da Serra Geral nessa viagem. Que lugar magnifico. O a cadeia de rochas escarpadas da delineiam a Serra Geral numa imagem que consegue ser amedrontadora e deslumbrante ao mesmo tempo. É no seu ponto mais alto que foi escavada a famosa fenda de 90m na pedra para que os locais pudessem cruzar a serra rumo ao mar, e vice versa. Eu desci, chorei, agradeci e segui, sempre em frente, rumo ao desconhecido, sem saber como seria o final do meu dia, onde comeria ou onde montaria minha barraca.


O próximo passo dos Aparados seria a famosa Serra do Rio do Rasto, a Serra do 12, como ela é conhecida pelos mais antigos. Milhares de turistas buscam conhecê-la todos os meses e eu já tive esse prazer há alguns anos. A Bibi já correu uma maratona que subiu a Rio do Rastro. Mas o desafio do dia era pesado. Mais exatamente 30kg entre bicicleta e carga. A Rio do Rastro é toda asfaltada e para mim, muito previsível. Com tempo bom, o que foi o caso, a gente consegue ver o final dela, e muito de por onde vamos passar. Os 41ºC do meio da serra deu lugar ao vento contra e gelado nas últimas curvas. Vento que empurrava a bike para baixo, Jósa que empurrava a bike para cima. Força em dobro e mais um desafio vencido.



Final de tarde, momento de providenciar algum mantimento e entrar no Parque Eólico de Bom Jardim da Serra e procurar um lugar para dormir. Sabe aquelas coisas que você precisa fazer uma vez na vida? Eu precisava fazer isso, sozinho, acampar mas bordas de um cânion nos Aparados da Serra. O medo deu lugar para a alegria quando a tempestade desviou e passou ao largo. O vento forte abrandou e a noite foi quieta, calma, fresca e de sono tranquilo depois de uma jantinha.
Já pedalou por entre torres eólicas? Eu nunca. Quer dizer, agora eu já pedalei. Os primeiros 10 quilômetros dos 45 do dia seriam por entre elas, grande e imponentes dominando a paisagem dos Campos de Cima da Serra. Estrada boa e bem conservada.


Que deu lugar a uma estrada em péssimas condições, com muitas valetas e pedras soltas durante quase todo o final do percurso do dia. Mas as paisagens dos Campos de Cima da Serra... Ahh essas paisagens nunca mais sairão da minha cabeça. Foi difícil, foi duro, foi esplendido.
E no Rio Púlpito eu parei e chorei. Chorei por ter conseguido chegar ali, me carregar e junto de mim carregar milhares de pessoas que estavam acompanhando aquela viagem. Depois de anos namorando aquele lugar pelas imagens de satélites e mapas. Depois de viagens canceladas por problemas de saúde que me tiraram as pernas, ou pelo menos me deixaram sem senti-las. Eu chorei tão somente por finalmente estar ali.
Uma viagem de bicicleta por territórios assim é efêmera. A gente chega e logo vai, porque o dia é curto, o percurso é longo e nós não sabemos bem o que vem pela frente. Um problema mecânico, uma dor não esperada e você não chega onde deveria, ou queria.Então deixamos o Púlpito e seguimos.


Seguimos a até a Fazenda Monte Negro para montar acampamento na neblina que no meio da tarde me levou o calor e mudou minha paisagem.
Lava roupa, faz comida, dorme, acorda. Pega o cavalinho. Partiu Cânion Monte Negro. Parece que o velho conhecido sabia da minha jornada e combinou com São Pedro que os dois fariam valer a pena. Que manhã. Que sol, que céu, que cores. As andorinhas que moram nas paredes dos cânions me receberam, cantaram pra mim enquanto executavam a sua coreografia ensaiada por anos. Eu liguei minha câmera e pouco falei. Ali, qualquer coisa que eu dissesse se transformaria em puro barulho.


Eu estava terminando a minha primeira parte da jornada e ainda naquele dia, eu trocaria de fazenda para iniciar a segunda parte dos meus Caminhos do Sul.
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