E há outros que parecem origens.
O Monte Roraima pertence a essa segunda categoria. Um bloco de pedra erguido entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana, que desafia a lógica, a ciência, o tempo e a compreensão humana. Quem o sobe, seja pela primeira vez, ou retorna, entende que ali existe algo que não cabe apenas no olhar.
É silêncio, mito, memória e geologia pulsando ao mesmo tempo.
É uma geologia do impossível.
O Monte Roraima é formado por arenitos e quartzitos, um conjunto de rochas com cerca de 2 bilhões de anos. São tão antigas que antecedem as plantas, os insetos, os continentes modernos e até mesmo o oxigênio abundante na atmosfera.
Essas rochas se formaram quando a região integrava o antigo supercontinente Colúmbia. Naquela época, onde hoje existe selva, savana e montanha, havia litorais, estuários e mares rasos.

A erosão de bilhões de anos desgastou o planalto original, deixando isolados apenas seus pilares, os tepuis, havendo mais de 80 nesse local geológico conhecido como Escudo das Guianas. O Monte Roraima é um dos maiores e mais emblemáticos.
É uma montanha que também tem mais de 10 quilômetros cavernas, túneis com rios e salões subterrâneos, como um gigantesco queijo suíço.
Um platô que já foi fundo do mar.
A mais de 2.700 metros de altitude, encontram-se estruturas que lembram corais petrificados, formas circulares, porosas e ramificadas incrustadas na rocha negra.
Embora não sejam corais biológicos modernos, esses padrões representam antigas formações sedimentares marinhas, um vestígio direto de que o topo do Monte Roraima já esteve submerso em ambientes aquáticos marinhos.
Assim como a Cordilheira dos Andes, que também já foi leito oceânico, o Monte Roraima guarda em seu platô as memórias de mares desaparecidos.
É um ecossistema que não existe em nenhum outro lugar.
O cume do Monte Roraima é considerado uma ilha no tempo. Espécies que ali evoluíram isoladas por milhões de anos, sem contato com o resto do planeta.
Entre elas, há pequenas florestas de plantas carnívoras. Como a Heliamphora nutans, uma planta carnívora primitiva. A Drosera roraimae, com seus tentáculos rubros.
Minúsculas rãs negras, a Oreophrynella quelchii, que não pulam, adaptadas ao frio, vivendo sobre musgos saturados.
Uma ave conhecida como Guácharo, a Steatornis caripensis, notívaga que usa ecolocalização como os morcegos, uma família de único gênero e especie que em 48 milhões de anos não evoluiu.
Bromélias que acumulam microflorestas em minúsculas poças.
Líquens que formam desenhos sobre rochas antigas como tatuagens do planeta.
Tudo ali é silêncio, umidade, vento e um tipo de vida que parece sobreviver apenas porque aprendeu a ser parte da pedra.

É uma montanha dos povos originários.
Para os Pemóns, Ingarikós, Taurepangs e Macuxis, o Monte Roraima nunca foi apenas geografia. É sagrado.
Segundo a tradição pemón, o tepui é o tronco da árvore cósmica Wazaká, a árvore da vida, que continha todos os frutos do mundo. Quando Makunaíma a derrubou, os frutos se espalharam pelo planeta, originando as nações, os animais e as diferenças do mundo. O tronco remanescente tornou-se o Monte Roraima.
Para os Ingarikós, o povo guardião da região norte, que visitamos ao subir o Monte Caburaí, o Monte Roraima é casa de espíritos ancestrais, guardiões das águas e dos ventos.
Subir a montanha sempre exigiu permissão espiritual e profundo respeito.
Nenhum povo local vê o Monte Roraima como destino turístico. Ele é um território de encantamento.
As formas da pedra são vivas. No cume, as rochas parecem seres.
Há tartarugas, elefantes e monstros de pedra. Gigantes adormecidos. Totens olhando o horizonte. Figuras zoomórficas e antropomórficas esculpidas por milhões de anos de vento e água.
A sensação é de caminhar entre vigias.
Como se o Monte Roraima tivesse olhos.
Há uma história humana e de expedições.
A primeira ascensão registrada foi em 1884, com Everard Im Thurn, guiado por indígenas da região.
Depois vieram geólogos, exploradores, naturalistas, aventureiros e nós montanhístas.
Mas quem realmente preservou o Monte Roraima foram seus povos originários. Sem eles, o tepui não seria o que é.
Hoje, quem sobe, como o grupo que nos acompanha nas expedições Monte Roraima Extreme, entra num território que é ao mesmo tempo ciência, mito, geologia e introspecção.
Há um significado espiritual.
Poucos lugares do mundo provocam uma sensação tão profunda de introspecção quanto o cume do Monte Roraima.
Ali, o horizonte se dissolve em neblina, e o tempo se torna quase uma substância física.
Para muitos, é impossível subir e descer o tepui da mesma forma.
A montanha transforma. Silencia. Revela.

Mas por que o Monte Roraima é único e importante para o mundo?
É um dos pedaços mais antigos do planeta expostos à superfície que podemos visitar. É como uma viagem no tempo.
Guarda memórias de mares pré-históricos, erguidos a mais de 2.700 metros.
Contém espécies únicas, que só existem ali.
É referência na cosmovisão de vários povos indígenas.
É um laboratório natural, objeto de estudo para geólogos, biólogos e climatologistas.
Inspira arte, mitos, narrativas e jornadas interiores em cada um que alcança seu cume.
E ao retornar você não será o mesmo e os efeitos ficarão dentro do seu ser por muito tempo...