Há montanhas que se sobem com as pernas. Outras, com o silêncio.
Percorrendo as grandes elevações do Brasil ao longo dos anos, compreendi que nenhuma delas é apenas um acidente geográfico. São arquivos geológicos, marcos políticos, territórios sagrados, e para quem caminha, espelhos interiores onde nos deparamos com o que somos em essência.
Subir essas montanhas é atravessar bilhões de anos condensados em rocha.
As maiores montanhas do Brasil concentram-se, essencialmente, em duas grandes regiões.
A primeira, no norte amazônico, no antigo Escudo das Guianas, junto à fronteira com a Venezuela. A segunda, no Sudeste, distribuída pelos maciços da Serra da Mantiqueira e Serra do Caparaó, atravessando quatro estados.
Todas guardam não apenas a história geológica do planeta, mas também a memória dos povos que ali viveram por séculos ou milênios. Subir uma montanha não é apenas alcançar o cume, é também decifrar seus segredos, sua história, sua origem e compreender seu significado.
A Amazônia: o Escudo Antigo da Terra
A bacia amazônica abriga três das maiores montanhas do Brasil, situadas nos limites fronteiriços do país.
Contexto geológico da Amazônia
Há cerca de 2 bilhões de anos, durante o período Pré-Cambriano, formou-se o Escudo das Guianas, uma das estruturas geológicas mais antigas da Terra. Muito depois, há aproximadamente 65 milhões de anos, o soerguimento da Cordilheira dos Andes transformou profundamente a região. Um antigo mar interior deu lugar a vastos pântanos e, mais tarde, ao sistema dos rios Solimões e Amazonas.
Desse processo nasceu a maior floresta tropical do planeta e, dentro dela, elevam-se algumas de suas montanhas mais emblemáticas: o Pico da Neblina, o Pico 31 de Março e o Monte Roraima.
O Pico da Neblina ou Yaripo
Localizado na Serra do Imeri, no Amazonas, dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina, é o ponto culminante do Brasil com 2.995 metros de altitude.
Seu nome reflete uma realidade climática permanente: o cume sempre coberto por densa neblina durante quase todo o ano. As janelas de visibilidade ocorrem principalmente nos extremos do dia, entre 6h e 8h e entre 17h e 19h, quando a neblina se dissipa brevemente.
O povo Yanomami, que habita a região, chama a montanha de Yaripo, a "Montanha dos Ventos". Não é um destino, é um ser vivo, parte do cosmos. Ali, natureza e espiritualidade não se separam. É território de espíritos ancestrais.
Seu acesso, durante anos restrito, hoje ocorre sob gestão indígena, um raro e necessário equilíbrio entre presença humana e preservação.
Geologicamente pertence ao Escudo das Guianas. É um TEPUI como o Monte Roraima. Como também é a Serra do Aracá, o único tepui exclusivamente brasileiro.
O Pico 31 de Março ou Masiripiwei
Com 2.974 metros, é a segunda maior elevação do Brasil, formando, junto ao Neblina, um mesmo maciço e fica na linha de fronteira com a Venezuela, onde é chamada de Pico Phelps em homenagem a William Phelps Jr., ornitólogo e explorador venezuelano..
Compartilha a mesma geologia ancestral e o mesmo território e cosmologia Yanomami, que o chamam de Masiripiwei. Diferente do Pico da Neblina que já permite a entrada dos yanomamis com visitantes, o Masiripiwei é restrito pelos yanomamis devido aos espíritos que eles acreditam habitar ali e que podem trazer malefícios para eles e para os visitantes.
Contudo, sua existência reforça uma controvérsia e discussão técnica sobre o que é montanha independente ou apenas um ressalto topográfico, um debate legítimo na geomorfologia. Segundo as normas aceitas será uma montanha se ela tiver um desnível em relação a base ou estruturas maiores, de pelo menos 300 metros. Ele está somente a cerca de 116 metros acima do colo que o separa do Pico da Neblina.
O Monte Roraima
Na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, ergue-se uma das formações mais raras, antigas e extraordinárias do planeta.
O Monte Roraima, uma formação geológica de mais de 2 bilhões de anos que tem cativado a imaginação de muitos ao longo dos séculos. Ele é um tepui, termo usado pelos indígenas Pemóns para as montanhas vistas como morada dos deuses. E de fato, sua aparência desafia a lógica: um imenso platô suspenso, frequentemente envolto por nuvens, como uma ilha flutuando no céu.
Ele é um platô com 35 km² numa altitude média com mais de 2700 metros e falésias que variam de 500 a 1000 metros com várias cachoeiras caindo em suas bordas. Um monumento planetário cuja área distribui-se majoritariamente na Venezuela (85%), com pequenas parcelas na Guiana (10%) e no Brasil (5%).
Ocupa o sétimo lugar entre as maiores montanhas do Brasil com a altitude de 2.734 metros medidas numa montanha dentro do território brasileiro no cume.
Sua formação com rochas esculpidas pelo vento e água em centenas de milhões de anos construíram formas que encantam os visitantes. Possui um conjunto de cavernas e fissuras no interior do platô que formam o maior complexo de cavernas em quartzito do planeta.
Ali vivem espécies únicas, isoladas por milhões de anos, de fauna e flora que não existem em outros lugares, como répteis raros e plantas carnívoras, entre outros.
No seu entorno habitam povos indígenas de várias etnias que o vem como uma montanha sagrada na sua cosmologia, a morada de Makunaina. É considerado um dos trekkings mais emblemáticos atraindo caminhantes de todo o mundo.
O Sudeste: As Montanhas do Brasil Colonial
No Sudeste, o relevo pertence à Serra da Mantiqueira — um sistema montanhoso antigo, profundamente erodido, mas imponente.
Das dez maiores montanhas do Brasil, sete estão aqui.
Contexto geológico do Sudeste
Formada entre 100 e 70 milhões de anos, durante a separação do Gondwana formando a América do Sul e a África, e abertura do Atlântico, a Mantiqueira ergueu-se por falhas tectônicas, criando um maciço cristalino que se estende por cerca de 500 km.
Mais tarde, há cerca de 55 milhões de anos, separou-se da Serra do Mar, dando origem ao Vale do Paraíba. A região passou por intenso vulcanismo, com picos altos que sofreram erosão ao longo do tempo.
A Serra do Caparaó tem a mesma origem geológica da Serra da Mantiqueira, há quem afirme que faz parte da Mantiqueira apesar de não constar oficialmente.
O Pico da Bandeira
Com 2.891 metros, situado no Parque Nacional do Caparaó, na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, é o terceiro ponto mais alto do Brasil.
Durante muito tempo, foi considerado o cume máximo do país. Em 1859, Dom Pedro II mandou fincar ali uma bandeira, gesto simbólico que lhe deu o nome.
Mas muito antes disso, a montanha já era território indígena, habitada por povos como os Puris.
Suas rochas metamórficas antigas, gnaisses e granitos, carregam idades que ultrapassam 2 bilhões de anos, embora sua formação estrutural mais recente date de cerca de 600 milhões de anos.
O clima é severo. Ali, o amanhecer não é apenas um espetáculo, é uma experiência transformadora.
No inverno, as temperaturas médias são de -5 graus podendo chegar a -10 graus. As lagoas do entorno congelam num fenômeno raro e espetacular desta região do Brasil.
Foi habitado por povos caçadores coletores que resistiram a colonização portuguesa por séculos protegidos pelas serras altas do Caparaó, os Botocudos, os Puris e grupos dos Tapuias. A origem do nome Caparaó é indígena e significa "águas que rolam das pedras". Nessa região existem diversas espécies de plantas únicas, só existem ali e mais em nenhum lugar do mundo.
O Parque Nacional do Caparaó foi criado em 24 de maio de 1961.
O Pico do Cristal
Vizinho do Bandeira, o mais isolado e menos visitado, tem esse nome por suas abundantes formações rochosas de quartzo, com paisagens de extrema beleza no seu entorno com bromélias e lírios sobre afloramentos rochosos. É imponente, grande e reluzente, fica a cerca de 1,8 km da trilha que todos passam quando sobem ao pico da Bandeira pela trilha capixaba.
É o sexto pico mais alto do país com 2.769 metros e sua proeminência topográfica é de 145 m partindo de qualquer ponto do terreno ao redor.
A Pedra da Mina, uma raridade planetária
Por que "Pedra da Mina"? O nome tem duplo sentido. Pode significar tanto "mina" de mineração quanto de "nascente" ou de "fonte de água" que tem sido o mais aceito localmente pois quatro pequenos córregos nascem nas proximidades do cume.
Com 2.798 metros é a quarta montanha mais alta do Brasil e o ponto culminante da Serra da Mantiqueira.
A Pedra da Mina localiza-se na Serra Fina, uma dos maciços mais desafiadores da Serra da Mantiqueira cuja travessia é considerada uma das mais exigentes do Brasil. Seu cume está na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo.
A Pedra da Mina bem como grande parte da Serra Fina é composta predominantemente de um mineral chamado nefelina sienito altamente alcalino, um tipo de rocha que se erode com facilidade e, por isso, raramente é encontrada em grandes altitudes. É provavelmente a montanha mais alta formada por esse tipo de rocha nas Américas e possivelmente no mundo, além de uma raridade geográfica.
Diferente das demais montanhas, ela não está situada num parque nacional ou estadual mas numa Área de Proteção Ambiental, num conjunto de várias RPPNs e sua entrada é controlada por meio de ingressos.
A Serra Fina, durante o período colonial, foi uma barreira natural quase intransponível. Os bandeirantes a atravessaram em busca de ouro, deixando rastros de exploração e sobrevivência.
Hoje, quem cruza suas cristas entende: ali não se vence a montanha, negocia-se com ela.
O Pico das Agulhas Negras
O nome origina-se nas caneluras, sulcos verticais escuros que "riscam" as escarpas do maciço e, de longe, lembram agulhas paralelas umas às outras. Essas ranhuras são formadas pelo intemperismo da nefelina sienito: a água acidificada pela matéria orgânica dissolve os minerais da rocha de forma diferencial, produzindo lapiás e caneluras de aparência característica. O nome indígena Tupi de Itatiaia, significa precisamente "pedra pontuda cheia de pontas" ou "penhasco cheio de pontas", numa referência à mesma geomorfologia que os portugueses chamaram de Agulhas Negras.
É o quinto pico mais alto do Brasil com 2.791 metros e fica na divisa entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Existem inúmeras vias de acesso ao seu cume e dentre as montanhas mais altas do Brasil é a que exige mais conhecimento técnico com escalaminhadas e escaladas, com lajes de rochas e exposição a abismos. É necessário o uso de equipamentos de escalada para segurança individual.
O Pico das Agulhas Negras é o único que é dito ter 2 cumes, pois no seu topo há uma fenda que separa o cume inicial de chegada para o outro local onde está o livro do cume e para chegar nele é preciso fazer um pequeno rapel e uma escalada.
Situado no Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro parque nacional do Brasil criado em 1937 e contém nascentes de várias bacias hidrográficas regionais.
O Morro do Couto
Uma montanha carregada de história humana, da resistência escrava ao conservacionismo pioneiro, passando por tragédias militares e científicas. Um morro cujo nome é um monumento silencioso à resistência negra e à busca por liberdade no Brasil colonial, pois os escravos que fugiam das fazendas se "acoitavam" (abrigavam) no morro do "Coito" que com o tempo virou "Couto".
Ocupa o oitavo lugar entre as montanhas mais altas do Brasil com 2.687 metros de altitude. Sua trilha de acesso tem cerca de 6 km ida e volta, uma das mais curtas do parque logo na entrada, no Posto Marcão.
A região já foi habitada pelos Puris, os povos indígenas caçadores-coletores e semi-nômades, do início do descobrimento do Brasil. No morro do Couto existe uma cavidade natural chamada de a Toca do Índio, que seria um refúgio mais protegido. O nome do parque, Itatiaia, é uma herança dessa presença: a palavra "Itatiaia" vem do tupi-guarani e significa "pedra pontuda cheia de pontas".
Em 2024 foi atingido por um enorme incêndio que destruiu grandes áreas do Parque. O Couto também nos lembra da fragilidade desses ambientes e da responsabilidade de quem os percorre.
A Pedra do Sino de Itatiaia
Seu nome vem da sua forma que sugere um grande sino sobreposto ao platô e é dito ser de Itatiaia para não confundir com a outra Pedra do Sino que existe no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, com altitude inferior.
Situada no estado de Minas Gerais é a nona montanha mais alta do país com 2.670 metros, formada por rochas vulcânicas e intrusivas. Seu enorme vulcão extinto foi ativo de 70 até 60 milhões de anos atrás e formou todo o maciço de Itatiaia. Caminhar pelo seu topo sugere um ambiente lunar devido às inúmeras crateras existentes na rocha e ranhuras chamadas de lapiás.
A trilha para acessar o seu cume é um dos caminhos mais belos do Parque de Itatiaia passando por uma região de vários lagos e várias formações rochosas como os Ovos da Galinha e próximo a nascente de vários rios. Na região é possível ver marcas de animais como a onça parda e o lobo Guará que circulam por ali. Também é destino de pesquisadores e estudantes de muitas universidades que durante o ano percorrem o Parque.
É uma montanha de contemplação, onde ciência, biodiversidade e beleza se encontram.
O Pico dos Três Estados
O Pico dos Três Estados é uma montanha em cujo topo está o ponto tríplice onde se encontram as divisas geográficas dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, e respectivamente, dos municípios de Passa Quatro, Resende e Queluz. No cume, um marco metálico indica as três direções.
Com 2.665 metros de altitude ocupa o décimo lugar entre as montanhas mais altas do Brasil, localizado na extremidade oriental da Serra Fina, e próximo à Pedra da Mina.
O Pico dos Três Estados faz parte da travessia da Serra Fina podendo ser acessado também pela trilha que começa na BR-354 passando pela região do Sítio do Pierre e do Alto dos Ivos.
As 10 maiores montanhas do Brasil
Conforme a última edição do anuário do IBGE em 2023 a relação oficial das montanhas mais altas do Brasil são:
| # | Montanha | Altitude (m) |
|---|---|---|
| 1º | Pico da Neblina | 2.995,3 |
| 2º | Pico 31 de Março | 2.974,2 |
| 3º | Pico da Bandeira | 2.891,4 |
| 4º | Pedra da Mina | 2.798,2 |
| 5º | Agulhas Negras | 2.791,1 |
| 6º | Pico do Cristal | 2.769,1 |
| 7º | Monte Roraima | 2.734,9 |
| 8º | Morro do Couto | 2.687 |
| 9º | Pedra do Sino de Itatiaia | 2.670 |
| 10º | Pico dos Três Estados | 2.665 |