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Cheguei na Rússia de bike! E agora?

Cheguei na Rússia de bike! E agora?

Viagens

Os primeiros instantes no novo país, como de praxe, foram de alívio e apreensão. Por mais experiente que você possa ser, a travessia de fronteiras sempre representa um marco zero em que se reiniciam todos os parâmetros. Em outras palavras, quase tudo que você aprendeu no território anterior não serve mais. 

 

A humildade é sempre o primeiro passo a dar, afinal é como estarmos despidos, analfabetos e alheios diante de uma estranha e nova realidade. É especialmente assim quando atravessamos regiões tão bem determinadas - como entre União Europeia e Rússia - onde a linha imaginária que separa os países é quase visível.

 

Com o passaporte carimbado faltava apenas descobrir o que é que eu estava fazendo na Rússia no final do ano. Já tinha pedalado por quase 8 dias desde Helsinque, na Finlândia e precisava finalmente de um banho e espairecer um pouco. Então São Petersburgo foi um prato cheio.

 

Três dias depois da travessia de fronteira cheguei. E até tentei abandonar por uns dias a minha versão viajante. Einstein, em certo momento disse:

 

“Uma mente que se expandiu nunca mais consegue voltar ao tamanho original”. 

 

Era assim que eu me sentia. Tentando não ver com os olhos que eu já via. Não tinha mais como voltar atrás de tudo que eu estava vivendo.

 

Mesmo depois de quase dois anos na estrada, não sei porque ainda insistia em ir para grandes metrópoles. São Petersburgo é fascinante, não posso me queixar. A cidade é surpreendente, moderna, boêmia, cheia de gente bacana, com uma arquitetura incrível, boa comida e foi uma oportunidade para um merecido descanso. 




 

No entanto, uma cidade grande dentro de uma longa viagem de bicicleta significa muita distração. Por mais que mude a cultura e o idioma, sabemos o que nos espera. Há muita informação desnecessária e é sempre uma chance de gastar mais dinheiro do que realmente precisamos. E o conforto? Eu sempre sinto falta da barraca e da privacidade depois de uma ou duas noites em um hostel. Mas a parte mais difícil é o que a grande cidade revela sobre velhos hábitos. É fácil corromper costumes que foram duramente conquistados ao mesmo tempo que você não se encaixa mais naquele ecossistema.

 

É impossível não parecer um alienígena ao encontrar uma pessoa urbana novamente.

Ao conhecer gente local e contar que chegara ali de bicicleta, vindo de tão longe, gera desde admiração a estranhamento. Repetir a história inúmeras vezes cansa, principalmente quando os olhares são de julgamento. Para uns é interessante e a conversa flui, mas para outros você é uma oportunidade para uma selfie para dizerem aos amigos que encontrou um maluco brasileiro que entrou na Rússia de bicicleta...Em novembro!



 

Pode ser confuso, angustiante...e dependendo de como você se encontra, incomoda. Passei mais de uma semana lá, tentando achar algum equilíbrio, tentando planejar para onde ir. Eu havia recém completado o sonho de ver as Auroras Boreais e entrei na Rússia apenas como saída emergencial pois precisava deixar a Comunidade Europeia. Ali, me senti perdido, preso e entregue às distrações urbanas e mundanas de uma grande cidade. 

 

Dúvidas, pensamentos e nada… Enquanto o medo do inverno tirava o meu sono, eu abria o mapa, fazia simulações de rota, mas terminava o dia no bar mais uma vez. A economia que fiz viajando pela Escandinávia foi embora em shots de vodka na animada São Petersburgo. E assim se passaram nove dias. 

 

Oeste? Leste? Pensei em ficar por lá, ainda mais depois que conheci a Vika.

 

Depois de alguns dias de neve e uma noite perto dos -10, o tempo melhorou. Com uma irritante indecisão, consegui me mexer. Fiz checkout e armei a bicicleta. Decidi cair na estrada novamente mesmo sem saber para onde ir. Sabia que ao chegar a uma bifurcação eu teria que me decidir: esquerda ou direita. Leste ou oeste. A cabeça voltou a funcionar melhor ao girar dos pedais. Com um pouco mais de serenidade, parei num posto de gasolina e escrevi num guardanapo as possibilidades, que já martelavam na cabeça há dias. Moscou ou Estônia. E decidi ir para o oeste para então fugir do inverno mais rigoroso, rumo ao sul da Europa. Não havia decisão fácil, o frio me pegaria de um jeito ou de outro, mas assumi que tentaria voltar à União Europeia com meu segundo passaporte e se desse tudo certo, se iniciaria uma verdadeira corrida contra o frio para chegar à Turquia ainda em 2018. 



 

E logo me deu um alívio. Bastou escrever num papel os cenários e pedalar um pouco para encontrar respostas.  E logo depois veio o questionamento. "Por quê? Por que eu parei tanto tempo novamente.” As respostas sempre vêm na estrada ou quando estamos nos movendo.

 

De volta à ativa, vários quilômetros depois, voltei ao jogo de caçar um lugar para acampar.

 

Perguntei em uma espécie de loja de construção se eu poderia montar minha barraca em um grande campo a poucos metros dali. O gerente me levou para outro prédio, onde me apresentou Ekbec, Xasan e Otabek. Todos eles são do Uzbequistão e são funcionários daquele galpão. Me levaram para uma casa e me acomodaram em um dormitório com calefação. Me ofereci para cozinhar o jantar como gesto de agradecimento, mas eles não me permitiram sequer lavar a louça. Os uzbeques cozinharam um delicioso macarrão artesanal.

 

Toda a comunicação foi através do google tradutor e nos divertimos muito, rindo com curiosidades dos nossos países. Eram 19:00 quando fui para a cama. Havia sido um dia psicologicamente intenso. 2h30 depois, um deles me sacudiu, me acordando de um sono profundo. 

 

“O jantar está pronto! O que? Jantar? De novo?” 

 

Tentei recusar, mas eles venceram.

 

Mais risadas, mais intercâmbio cultural, fotos e aqueles olhos brilhantes da estrada que eu já sentia falta ... os meus e os dos outros. Eu estava de volta aos trilhos depois de um começo muito difícil naquela manhã em São Petersburgo.

 

Na manhã seguinte eles assaram pães como se faz no Usbequistão e me deram de presente para a estrada. Fizemos uma vídeo chamada com seus parentes e tiramos mais fotos. 

 

E por último mas não menos importante: a sensação de que havia tomado o caminho certo, a melhor decisão. E não importa para onde iria ou o que iria acontecer. Eu estava sentindo falta da sensação de incerteza e até mesmo dos ventos frios batendo no meu rosto. E daquela confiança que no final do dia tudo termina bem.

 

Partiu Estônia!


 
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